"Nos clubes em que joguei no Brasil, os jogadores, na maioria, tinham conforto. Aqui, estou vendo atletas com dificuldades de botar gasolina. Nunca vivi isso. Mas não esqueço de onde eu saí. A molecada está sem receber. E não recebe salários astronômicos. São três, cinco meses. E tão importante quanto o dinheiro é o carinho. O ser humano espera uma palavra de apoio, conforto, carinho, uma esperança. Óbvio que precisa de grana para pagar contas. Supermercado não aceita carinho." "Ninguém mandou me contratar. Não gosto de perder. enquanto eu ver coisa errada, eu vou falar. Pessoas de bom coração, que são honestos e são dignos, ai eu abraço. E quando eu abraço é foda.." "Quando cheguei aqui, fui muito bem recebido. Não tenho nada a dizer. Mas com o passar do tempo, vi situações que não alegram, não trazem benefício, não agregam. Vi promessas não cumpridas. Datas, prazos e nada por salários. No dia acertado, todos ficam esperançosos. Depois, no dia, vem a desilusão. Isso cansa. Ninguém é babaca. Ninguém é idiota. Sou a favor da verdade. Quem vende sonho é padaria. O atleta quer verdade." "Há contratações extremamente duvidosas. Do caráter financeiro. Envolvimento de diretoria com empresários… Tem que dar um basta nisso." "Doa a quem doer, tem que ser sincero. Falar a verdade. Eu, muitas vezes, me prejudiquei na carreira por falar o que penso. Se a lei me dá o direito, não vou mentir. Eu, Emerson, com família, mulher, filhos, sairia. Tenho família, contas a pagar." "Cheguei ao clube na terça e estava um silêncio no vestiário. Pensei que fazia parte por causa da derrota para o Flamengo. Aí, cheguei na quarta e a mesma coisa. Comecei a não entender. Futebol não te dá muito tempo para chorar. Aí, eu liguei a minha caixa de som pensando que ia dar uma animada. Um jogador chegou perto, no meu ouvido… E, baixinho, disse: “Emerson, que bom que você chegou com essa energia toda. Eu não estou triste com a derrota para o Flamengo, mas porque a diretora do colégio me ligou para dizer que mais um mês da mensalidade venceu. E eu não sei mais o que falar.” "O Corinthians me paga. E, assim, o dia que era para ser de alegria é o de maior tristeza. Eu sei que todo dia cinco o meu salário cai na conta. E aqui? Sei que a maioria aqui não. O Julio Cesar é meu amigo, um irmão. Fico pensando nos filhos dele, na mulher dele, na roupa, como estão se vestindo. E a dos outros? É foda..." Foi uma das reveladoras entrevistas do ano. Deveria estar decorada pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, e da própria presidente Dilma Rousseff. Eles que pressionarão a liberação de R$ 4 bilhões de dívidas dos clubes nesta semana. A situação que Emerson Sheik detalhou ao jornal Extra sobre o Botafogo é vergonhosa, chocante. Não foi por acaso que os atletas entraram para o clássico contra o Flamengo com carregando uma faixa em pleno Maracanã. Muitos e muitos comentaram o lado emocional do que estava escrito. "Estamos aqui porque somos profissionais e, por vocês, torcedores." Mas o que deveriam ter sido explorados eram os dados assustadores. Três meses de salários atrasados, cinco meses sem direito de imagem, além do clube não estar depositando o Fundo de Garantia dos jogadores. A dívida do Botafogo saltou de R$ 237 milhões em 2008 para mais de R$ 700 milhões. O governo federal assistiu de braços cruzados um dos clubes mais tradicionais do país dar essa demonstração de incompetência administrativa. Como ele há vários outros que juntos somam mais de R$ 5 bilhões em dívidas públicas. Impostos não pagos que fechariam qualquer empresa. Mas como são clubes seguidos por milhões de torcedores/eleitores têm a permissão de seguir existindo da maneira mais irresponsável possível. Quando o Proforte começou a ser discutido no ano passado, as dívidas dos clubes brasileiros com a União era de R$ 4 bilhões. Só que menos 12 meses depois, já chega a R$ 5 bilhões. A bola de neve já é gigante demais. O dinheiro que Rebelo e Dilma querem dar já não será suficiente. Na teoria não dói tanto. Mas a prática explícita é assustadora. Sheik tem uma carreira tumultuada. Fraudou idade e o próprio nome. Teve problemas na justiça com carros importados. Resolveu dar um beijo na boca de um amigo para desviar o foco de um problema com Tite. Mesmo sendo fundamental na conquista da sonhada Libertadores, tornou sua permanência insustentável no Corinthians depois daquele beijo. Acossado pelas organizadas, seu futebol caiu e teve de aceitar ir embora.
Apesar do potencial, os outros grandes clubes viraram as costas a ele. O endividado e problemático Botafogo o viu como esperança. Teria um jogador consagrado. Emerson é esperto. Sabia onde estava se metendo. Só aceitou a transação depois de o Corinthians se comprometer a pagar seu salário integral. Os cariocas devem ao clube paulista e não ao jogador. Com todos os diversos problemas de sua carreira, ele se tornou muito mais importante do que o impecável Seedorf. Por ter atitude. O holandês criticava internamente, cobrava o presidente Maurício Assumpção. Orientava os jogadores. Acreditava que estava ajudando o clube sendo discreto. Um enorme erro. O que o Botafogo precisava de verdade era alguém como Sheik. Com coragem de expor o dia-a-dia. A tragédia econômica dos jogadores. Que trabalhador estaria em paz recebendo de três em três meses? Sheik é visto com muito maior admiração pelos botafoguenses do que Seedorf. O brasileiro empresta dinheiro aos companheiros, como o holandês também fazia. Mas a sua coragem de peitar a diretoria em público tem sido fundamental. Até para a reação do time. Tem encorajado a todos a seguir lutando em campo. Não foi por acaso que, mesmo com um time limitado, empatou ontem contra o poderoso Cruzeiro, líder do Brasileiro. A dedicação dos atletas segue a filosofia simplista de Sheik. Se está ruim sem receber fora da zona do rebaixamento, tudo ficará ainda pior se o time cair para a Segunda Divisão. A maioria do elenco já tem mais de sete partidas pelo Botafogo. Já vivemos agosto. O consenso geral é se segurar até o final do ano. Fazer de tudo para manter o clube na Série A, até para não desvalorizar as próprias carreiras. E no início de 2015, tomar um rumo na vida. Talvez até com uma ação conjunta, com uma debandada geral. Os jogadores se livrando do clube devedor. Mas liberdade com a certeza de receber tudo o que o Botafogo lhes deve. Sheik, quem diria, é mais importante para a história atual do Botafogo do que Seedorf. Por isso é adorado pelos companheiros de clube. Teve a coragem de mostrar o drama que vivem. Sem medo algum da diretoria. "Ninguém mandou me contratar. Enquanto eu ver coisa errada, eu vou falar. E quando eu abraço (uma situação) é foda..."
Autor: cosmermoli
Publicado em: , 03 Aug 2014 08:12:47
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