sexta-feira, 11 de julho de 2014

Felipão sabe que errou na dose. Pressionou demais a Seleção. Nem ele sabia o que era disputar a Copa em casa. E com a obrigação de ganhar. O time está psicologicamente destruído...

Felipão sabe que errou na dose. Pressionou demais a Seleção. Nem ele sabia o que era disputar a Copa em casa. E com a obrigação de ganhar. O time está psicologicamente destruído...


Teresópolis...

Regina Brandão trabalha com Felipão desde 1993. Os dois desenvolveram um método de trabalho que sempre deu resultado. Ela visita a concentração do time ou da seleção onde o técnico esteja trabalhando. Acompanhada de uma ou duas assistentes.

O grupo traça o perfil de cada atleta. Felipão sabe que jogadores não querem psicólogo acompanhando as delegações. Não querem passar a imagem de desequilibrados. Se recusam a fazer tratamento para que seus segredos nunca venham a público.

Felipão analisa os perfis e, baseados neles, decide como trabalhar com cada atleta. O resultado sempre foi muito bom, garante o técnico. E os dois decidiram pelo mesmo caminho nesta Copa do Mundo.

A visita de Regina e duas auxiliares rendeu mais de cem folhas repassadas para Felipão. Ele tinha o perfil da Seleção que time que convocou. E o treinador começou a trabalhar.

Só que ele não levou em conta algo importantíssimo. A própria competição: a Copa do Mundo no Brasil. Disputar a competição dentro do país era algo inédito inclusive para ele.

Felipão acreditou estar fazendo o certo ao assumir a postura de líder. E avisar a todos os concorrentes, à população e imprensa brasileira: a Copa do Munto tinha dona. "A Seleção será campeã do mundo."

O anúncio teve um impacto enorme e cheio de efeitos colaterais. São 17 jogadores que disputam pela primeira vez uma Copa. E 23 que nunca a disputaram em casa. Mostraram não estavam preparados para tanta pressão.

Sem querer, Felipão aumentou e muito a emoção dos atletas. Pedindo para que cantassem abraçados o hino nacional. Ele não tinha ideia do impacto o que era milhares de vozes gritando a música à capela nos estádios. Quebrando o protocolo da Fifa.

Com a cantoria, a obrigação de vitória é multiplicada a cada jogo.

Ele foi pilhando mais e mais seus atletas. Levando ao máximo as emoções. Antes da partida contra o Chile, os jogadores foram submetidos a um vídeo mostrando os órfãos da enchente de Teresópolis. Crianças que ficaram sem pai, mãe, irmãos arrastados pela tromba d'água que caiu na cidade em 2011. Muitas delas não puderam nem se despedir dos parentes, já que seus corpos não foram encontrados.

Depois entrou o garoto paraplégico que Luciano Huck levou à concentração. Ele fandendo embaixadinhas e dizendo que o sonho da vida dele era ser jogador da Seleção Brasileira. De arrebentar qualquer coração.

O vídeo foi editado pela Globo. Com fundo musical pungente. A intenção era comprometer a alma dos atletas com a vitória. Logo no primeiro jogo eliminatório. A dose se mostrou exagerada.

Por isso tantas e tantas lágrimas até antes de o jogo começar. Eles tinham de ganhar de qualquer maneira. Ou estariam traindo os órfãos, o garoto paraplégico, a população do Brasil. A excelente postura tática do Chile só aumentou a angústia.

O cheiro de medo dominou a Seleção. A decisão por pênaltis deixou tudo mais escancarado. Felipão não percebeu que os jogadores podem ser experientes em atuar em clubes importantes. Onde brigam pela própria carreira. Podem jogar de azul, vermelho, verde, preto. O envolvimento não é tão profundo quanto defender um país.

Os atleta se sentem em uma missão patriótica. Os nervos na concentração estão a flor da pele. Um exemplo disso foi o que aconteceu nos vestiários no Mineirão. Fred deu um tapa na cabeça de Medel assim que o primeiro tempo acabou. O jogador chileno ficou revoltado.

Pelo protocolo da Fifa, os dois times descem juntos para seus vestiários. Longe das câmeras, o auxiliar técnico de Sampaoli, o também argentino Sebastian Beccacece inflado os jogadores a partir para cima dos brasileiros. A partir daí a história ganha duas versões. E em ambas o chefe de comunicação Rodrigo Paiva é personagem importante.

Os chilenos garantem que ele chegou a dar um soco no rosto do atacante Pinilla. Na versão brasileira, Rodrigo garante apenas que se defendeu e empurrou o chileno. A Fifa tem o vídeo do que aconteceu. O Comitê Disciplinar está analisando o que fará. O relatório do árbitro Howard Webb terá um grande peso na decisão da entidade.

A confusão dos vestiários só deixou os brasileiros mais transtornados. No segundo tempo, eles mal pegaram na bola. Não tinham tranquilidade para tentar fugir das duas linhas de marcação montada por Sampaoli. A situação continuou na prorrogação.

Tudo ficou ainda mais dramático quando no último minuto dos 120 de confronto, Pinilla, justo ele, acertou o travessão de Júlio César. Os jogadores brasileiros agradeciam aos céus a decisão chegar às penalidades. Por isso tantas lágrimas.

Thiago Silva sentou em cima da bola e se afastou do grupo. Chorava tenso sozinho. Rezava. Para não participar da decisão. "Bater pênalti é uma grande responsabilidade em casa e pedi a Deus para não chegar a minha cobrança. Errei dois dos três últimos pênaltis que bati, e o Felipão me perguntou: 'Você pode ser o sexto?' Eu disse que não. Pedi para ficar como último da lista atrás até do Julio Cesar. Não estava confiante."

A sua atitude era simbólica. O capitão do time se isolando. Tenso. Orando para ter de cobrar seu pênalti. Todos já sabem de sua postura. Ele está sendo massacrado nas redes sociais.

Neymar também estava uma pilha de nervos. Assim como Willian, Hulk. David Luiz abraçava, incentivava. Gritava. A Seleção Brasileira chegava desesperada como nunca para uma decisão por cobranças de pênaltis.

Por isso tanto choro de alegria quando o time venceu. Mas está claro que psicologicamente a dose de emoção que Felipão administrou ao time foi excessiva. Ninguém sabia o que era disputar a Copa em casa. Com a obrigação de ser campeão do mundo. Com um elenco inexperiente em termos de Mundial.

"Eu tinha uma ideia do que seria. Mas tudo é grande demais. A nossa vontade de não decepcionar milhões de pessoas é lógico que pesa. Por isso que estamos tão unidos. Não podemos falhar e frustrar tanta gente que espera a nossa vitória", revela David Luiz.

Um time de futebol que não pode falhar. É assim que o Brasil se sente. Em plena Copa do Mundo. Na história não há uma equipe que tenha se imposto tanta responsabilidade. Por isso tudo é superlativo.

Luiz Felipe Scolari sabe que errou na dose. Reverter o provocou emocionalmente no time brasileiro é algo dificílimo. Desde que estão juntos há mais de um mês, os jogadores só escutam e repetem sobre a responsabilidade de ganhar a Copa para o povo brasileiro.

Este é o maior desafio daqui por diante. Tentar controlar os nervos dos jogadores. Esse descontrole quase é responsável pelo contrário: tirar a Seleção da Copa. E ao mesmo tempo, Felipão sabe que seu time taticamente precisa melhorar muito.

O nível dos adversários é maior do que os que o Brasil enfrentou até agora. A começar pela Colômbia que ganhou suas quatro partidas e ainda conta com o artilheiro da Copa, James Rodriguez. Se o time não se controlar emocionalmente, o sonho pode escorrer pelos dedos.

O delicado preparo da equipe depende exclusivamente de Felipão. E ele vai tentar controlar o que provocou. Trazer menos emoção e mais consciência ao time. Se não conseguir, há o risco muito grande de que as lágrimas derramadas no gramado não sejam de alegria daqui para a frente. A começar por Fortaleza na sexta-feira...

(A Fifa acaba de decidir pela suspensão de Rodrigo Paiva. A entidade chegou à conclusão que ele agrediu o auxiliar de Sampaoli. O assessor do Brasil não poderá seguir com a delegação na partida contra a Colômbia. Ele foi suspenso por uma partida. Algo inédito na Seleção Brasileira nas Copas do Mundo...)


creator: cosmermoli
Publicado em: Mon, 30 Jun 2014 07:29:12 -0300
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