Teresópolis...
Vieram e foram Dunga, Mano Menezes. Felipão está a um jogo de se despedir. E Tite é, disparado, o mais cotado para assumir a Seleção. Quatro homens nascidos no Rio Grande do Sul e, bem além da certidão de nascimento, são formados no futebol gaúcho.
No extremo Sul do Brasil, treinadores aprendem desde cedo que o importante é lutar, brigar pela bola. Primeiro preencher os espaços atrás. Marcar. Desenvolver um sistema de contragolpes. E só depois atacar. Isso é cultural. Como os treinadores cariocas instintivamente pensam no toque de bola. Os paulistas no preparo físico.
Tite é o treinador com maior currículo entre todos os pretendentes. Tem vantagem diante de Muricy Ramalho, Abel Braga, Cuca. Acumula a Libertadores e o Campeonato Mundial em 2012. Abel venceu há oito anos... Bem educado, contido, Adenor faz questão de se mostrar atualizado.
Sua competente assessoria de imprensa faz questão de municiar jornalistas com informações sobre ele. Suas viagens para a Europa para entender como Barcelona, Bayern, Real, Atlético de Madri estão jogando. Comentou com propriedade a final da Champions League na ESPN.
Está seguindo à risca as determinações do seu empresário Gilmar Veloz. Desde que o Corinthians decidiu não renovar seu contrato no final do ano passado, sua estratégia foi imitar Luiz Felipe Scolari. Apostar tudo, ficar disponível para a Seleção Brasileira. Esperar por um telefonema de José Maria Marin ou Marco Polo del Nero.
Recebeu sondagens do Grêmio, Inter e Flamengo. Agradeceu muito. Mas disse que precisava de um período sabático para se reciclar. Tite precisava usar uma mesma arma de Felipão: a falta de memória dos torcedores, da imprensa.
Se todos fingiram esquecer que Scolari encaminhou o Palmeiras ao rebaixamento em 2012, a amnésia seletiva também se encaixaria nos seus últimos momentos no Parque São Jorge. Ele se perdeu completamente em 2013.
Adenor ficou preso a laços emocionais com o time que lhe deu as maiores conquistas de sua carreira. Não teve jogo de cintura para aceitar uma estrela midiática que não pediu e o Corinthians precisava: Alexandre Pato. A equipe implodiu e se arrastou no final do ano passado. Os dirigentes decidiram que o treinador não seguiria mais no Parque São Jorge.
São sete meses de desemprego voluntário esperando a Seleção Brasileira. Seu assessor de imprensa agendou várias entrevistas para que não fosse esquecido. Como trabalha também com Bernard, visitou a Granja Comary para medir a temperatura. E foi cercado por repórteres e mais repórteres. Todos sabem que Tite tem grandes chances de ser o primeiro nome da lista de espera.
A intenção de Marin e Marco Polo era manter Luiz Felipe Scolari no cargo para 2018. Depois da classificação para as semifinais, ambos viveram alguns dias no paraíso. Mas caíram de cabeça no inferno. Como o presidente da CBF havia previsto. "Enquanto estamos vivos na Copa vivemos no purgatório. Se ganharmos entraremos no céu. Se perdermos, será o inferno", definiu em Goiânia.
E está sendo assim mesmo. Desde o massacre da Alemanha, com a pior derrota da história da Seleção Brasileira, com os 7 a 1, a dupla que comanda o futebol brasileiro está desorientada. Conversa, sonda, analisa.
Um dado importantíssimo será levado em conta na avaliação dos dirigentes. A perda da parceria com a Globo. Desde a goleada em Minas Gerais, o tom da cobertura da emissora mudou drasticamente. Acabou a proteção a Scolari. De nada adiantou as conversas e revelações exclusivas a Patrícia Poeta. Usar o Jornal Nacional como o veículo oficial para notícias da Seleção Brasileira.
Acabou o tratamento especial. A Globo viu esvaziar a euforia e a audiência com a Copa. O tratamento dado é o mesmo quando um programa deixa de interessar o público. Traz prejuízos. O trabalho de Felipão continua o mesmo. Mas as críticas vieram e pesadas. À incrível falta de treinamentos, preparo psicológico, dependência de Neymar, programação caótica. Tudo que era denunciado por outros veículos de comunicação desde antes da Copa.
Além dos ataques, agora a indiferença. A emissora mandou avisar à imprensa especializada em tevê que Galvão Bueno não narrará a decisão pelo terceiro lugar com a Holanda. Ficará guardado para a final entre Alemanha e Argentina. Esse é um tapa de luva de pelica no trabalho feito na Seleção. É como se, para a emissora, esse time aqui na Granja Comary não interessasse mais.
Marin está diante de um dilema enorme. A desilusão foi tão grande em Belo Horizonte que finalmente ele percebeu o quanto foi instável a caminhada da Seleção na Copa. É preciso se livrar de Felipão. Ele representaria todo o sucesso se o Brasil fosse hexa. Mas personaliza a decepção, o fracasso com mais um Mundial que a Seleção perde em casa, depois de 1950.
A cúpula da CBF sabe que há uma grande pressão nacional para a contratação de um treinador estrangeiro. No ano passado já havia sido assim, depois da demissão de Mano Menezes. Mas José Maria Marin é absolutamente contra. Aos 82 anos, ele é nacionalista radical. Tem toda sua formação política na Ditadura Militar. Foi governador biônico dos paulistas.
Assim como o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, não quer ver alguém nascido fora do país comandando a Seleção Brasileira. O político já chegou a enviar projeto querendo impor à força, raspa de mandioca no pão francês. E queria que no dia 31 de outubro fosse comemorado o dia do Saci Pererê e não o Halloween. Outro nacionalista radical.
Marin e Marco Polo estão encurralados. O cenário é assustador. Não há grandes opções. Ainda mais para quem deseja agradar ao governo. O quarto gaúcho em seguida é o nome mais forte até por eliminação. Em 2012, a dupla não quis chamar Tite também por sua ligação umbilical com o inimigo político Andrés Sanchez. Algo que agora a assessoria do treinador deixa claro que não existe mais.
Por uma questão de respeito a Felipão, Marin vai deixar o treinador anunciar sua saída. Logo após a decisão do terceiro lugar contra a Holanda. Ou depois que a Copa acabar. O presidente da CBF agradecerá com um discurso pungente o trabalho que não deu certo e precisará anunciar o seu sucessor.
Até porque já em setembro, o Brasil enfrentará Colômbia e Equador. Serão dois amistosos em Miami. A vida vai recomeçar. Sem Felipão. E muito provavelmente com o quarto homem seguido formado entre bombachas, mate e muita marcação, pegada e que não despreza um bom 0 a 0.
Em 2013, o Corinthians bateu seu recorde. Nunca havia empatado tantos jogos na sua história. Foram 31 empates, o maior número desde que foi fundado em 1910. Foram 15 0 a 0. O que traz alívio. Se Tite realmente assumir, de 7 a 1, o Brasil não perde...
creator: cosmermoli
Publicado em: Thu, 10 Jul 2014 09:53:06 -0300
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