terça-feira, 2 de setembro de 2014

Gareca segue o caminho de Fossatti, Miguel Ángel e Passarella. O Brasil não dá chances reais a estrangeiros. O mercado reservado a técnicos nacionais barra o intercâmbio e garante o atraso...

Gareca segue o caminho de Fossatti, Miguel Ángel e Passarella. O Brasil não dá chances reais a estrangeiros. O mercado reservado a técnicos nacionais barra o intercâmbio e garante o atraso...




A demissão do argentino Gareca do Palmeiras é uma vitória para os técnicos brasileiros. Assim como havia a do espanhol Miguel Ángel Portugal do Atlético Paranaense. Do uruguaio Jorge Fossatti no Internacional. Do também argentino Daniel Passarella do Corinthians. O mercado de trabalho está reservado aos tupiniquins, principalmente na Seleção Brasileira. A imprensa portenha ficou pasma com a demissão sumária de "El Tigre", como é conhecido Ricardo Gareca. Antes de suas 13 partidas no Palmeiras ele havia ficado longos quatro anos comandando o Vélez. Miguel Angel chegou a Curitiba animado, tinha a certeza que iniciaria um ciclo de muito tempo na Arena da Baixada. Foi despachado também após 13 jogos. Jorge Fossati, ex-treinador da Seleção Uruguaia, não foi diferente. Comprou a ideia de formar um elenco milionário para conquistar a América com o Internacional. Teve de arrumar as malas depois de 33 partidas. O capitão da Seleção Argentina campeã do mundo de 1978, Daniel Passarella, suportou apenas 15 jogos no Corinthians. "O Brasil não é moleza, não. Técnico estrangeiro não entende a nossa cultura. A nossa bagunça, a nossa desorganização. A pressão por resultados mesmo sem treinos. É por isso que, por melhor que sejam, não conseguem se firmar. Aqui é terrível para trabalhar." A definição é de Muricy Ramalho. A primeira e grande dificuldade dos técnicos estrangeiros em entender que a palavra empenhada dos dirigentes não tem peso. Não há juramento de um longo trabalho que suporte a pressão dos torcedores, da mídia, dos conselheiros. Gareca, por exemplo, chegou ao Palmeiras certo que Brunoro e Paulo Nobre lhe dariam guarida por pelo menos até o final do ano, quando acabada o mandato do atual presidente palmeirense. Foi o que mais insistiu quando negociava sua vinda ao Brasil. Seu sonho era trabalhar no futebol europeu, na Espanha. Como não houve convite estava acertando contrato com o Racing. Mas surgiu o Brasil, com o Palmeiras. Ficou indeciso em relação a trocar de país, à adaptação. Mas teve a promessa de que poderia ficar "tranquilo". O projeto era sério. Assinaria por um ano, até o junho de 2015. Com a prioridade palmeirense para a renovação até 2016. A multa por uma "improvável" demissão seria a metade dos salários que teria a receber. Mas Gareca não deveria ser preocupar. Sofreria um pouco neste restante de ano e, depois da reeleição de Nobre, teria um grande time à disposição. E ainda a nova arena como cúmplice. O argentino veio para o Brasil completamente iludido. Levando em conta o currículo do Palmeiras, time nacional com maiores conquistas no século XX. Ficou completamente perdido. Foi tão exposto que conseguiu escalar 13 equipes diferentes nas 13 partidas que ficou no clube centenário, um absurda demonstração de insegurança. Assim como Fossatti, Passarella e Miguel Ángel Portugal, o argentino não esperava tanto imediatismo. O técnico estrangeiro no Brasil precisa dar resultados imediatos. A sua contratação geralmente contraria interesses fundamentais. Como a de empresários poderosos brasileiros que mantêm excelentes relações com técnicos brasileiros. E grande facilidade em colocar seus jogadores nos principais clubes do país. Alguém de fora é difícil cooptar. Leva tempo para apresentar o seu elenco particular. O que muitas vezes afeta inclusive dirigentes amigos desses agentes de atletas.

Gareca insistiu e fez o Palmeiras buscar quatro argentinos. Tobio, Allione, Cristaldo e Mouche. Jogadores de potencial limitado. E que não escondiam que o técnico havia sido a grande motivação para trabalhar no Brasil. Era lógico que o quarteto ficasse unido e muito mais próximo do treinador do que o restante do elenco palmeirense. Houve uma silenciosa ruptura. O elenco ficou rachado. Nada declarado, mas não havia e não há cumplicidade. Tanto que após a demissão do treinador argentino, o clube tentará se livrar dos seus quatro atletas de confiança. Além disso, como Passarella tanto reclamou no Corinthians, Gareca foi surpreendido com o nivelamento técnico dos adversários. Os dois acreditavam que estavam sendo contratados por equipes muito mais fortes do que as rivais. Que mandavam no futebol brasileiro como Boca e River na Argentina. Puro engano. O contato diário com a imprensa brasileira também é um motivo de stress para o treinador estrangeiro. Eles estão acostumados com um distanciamento muito maior. "Eu só falo depois do jogo se eu quiser. Como fazia na Argentina. Vocês (jornalistas) terão de se acostumar. E não dou entrevista no gramado, antes de começar a partida." A postura de Gareca foi vista como um misto de arrogância e covardia. Seu relacionamento com os setoristas do Palmeiras se tornou frio, distante. Com importante dose de desconfiança, rancor. O jornalismo esportivo brasileiro se habituou a se pautar pelas declarações de personagens importantes do clube. Se o técnico se cala após uma partida importante cria uma lacuna, grande dificuldade de interpretação do jogo. O argentino nunca terá ideia do quanto se desgastou por seu silêncio. Apesar de falar muito bem português, Jorge Fossatti teve muito desgaste com a imprensa gaúcha. A diferença nos métodos de treinamento também pesa contra os estrangeiros. Mesmo sem grande potencial técnico, os jogadores que atuam no Brasil são dos mais mimados no mundo. Vaidosos, não aceitam ser cobrados diante dos colegas. Passarella acreditava que Roger tinha de correr mais no Corinthians. Várias vezes reclamou dele nos treinamentos mesmo diante de jornalistas. O deixou na reserva. O ressentimento era nítido. E estourou de uma maneira que só veio à tona nove anos depois.

Nas quartas de final da Copa do Brasil de 2005, o Corinthians teve o Figueirense pela frente. A disputa foi parar nas cobranças de pênaltis. Roger desperdiçou a sua de maneira inacreditável. Bateu como nunca na sua carreira. Forte demais, a bola subiu, encobriu o gol. O time foi eliminado, a culpa recaiu sobre Passarella. O treinador acabou demitido. De acordo com o jornalista Juca Kfouri, Roger, agora comentarista do Sportv, confessou que perdeu a cobrança de propósito, para sabotar o trabalho do treinador argentino. Roger não desmentiu a notícia dada em junho há três meses. Os fracassos de Fossatti, Passarella, Miguel Ángel e Gareca desestimulam os dirigentes nacionais a apostarem em técnicos do Exterior. Cada vez mais se convencem que a adaptação não vale a pena. Esta certeza chega até os inseguros Marin e Marco Polo del Nero. Cada vez mais ficam convencidos que a Seleção é lugar de técnico brasileiro. Guardiola, Jürgen Klopp, Carlo Ancelotti, Mourinho, Joachim Low não interessam. Por isso, com Mano Menezes queimando a nova geração do treinadores, as voltas de Felipão, Parreira, Dunga. Técnicos nacionais acostumados com a desorganização do calendário, o caos, o atraso administrativos. Assim como as manhas do jogador brasileiro. E a pressão para resultados imediatos em clubes sem rumo como o Palmeiras. Toda essa receita explica 12 anos sem conquistas de Copa do Mundo. A decadência. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Não há como ter intercâmbio, abrir espaço para novas ideias, novas táticas vindas do Exterior. O futebol brasileiro não abre espaço para evoluir. Reserva seu viciado mercado para os mesmos treinadores, com as mesmas ideias copiadas da Europa de dez anos atrás. Que ninguém estranhe novo fracasso na Rússia em 2018...





Fonte: Esportes R7
Autor: cosmermoli
Publicado em: 02 Sep 2014 11:05:55
Ler mais aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário