O amadorismo domina o Palmeiras. Paulo Nobre deu o controle do futebol para José Carlos Brunoro. Repassou tamanha responsabilidade como um garoto que tem a chance de contratar um ídolo. Embora bilionário, Nobre foi membro de torcidas organizadas. E acompanhou das arquibancadas todo o sucesso de Brunoro e a Parmalat no início da década de 90. O dinheiro jorrava da multinacional italiana. Brunoro contratava o jogador que o treinador quisesse. Era como se montasse uma equipe de videogame. O Palmeiras teve verdadeiras seleções. Cafu, Antônio Carlos, Roberto Carlos, Rivaldo, Djalminha, Evair, Edmundo, Mazinho, Luizão, Cléber e tantos outros. Nobre aplaudia e sonhava um dia presidir o clube. Sabia que o dinheiro da família lhe daria esse status. Com tanta verba no bolso não foi difícil se articular para assumir o decadente Palmeiras. Com uma certa ajuda da ala conservadora do clube. Assim que percebeu que seria eleito, Nobre procurou o ídolo Brunoro e lhe entregou o futebol. Não se importou os anos e anos que ele esteve longe do futebol de elite. A missão era sair da Segunda Divisão. Gilson Kleina, treinador que até então só tinha um título, campeão alagoano com o Coruripe servia. Ao voltar para a Série A, a ambição de Brunoro era maior. Ele queria revolucionar o futebol brasileiro. Contratar um treinador argentino. Foi atrás de Marcelo Bielsa. O ex-treinador da Argentina não justificou o apelido de "louco". Bem informado, sabia o que sofreria no Palmeiras. E disse não. Sem graça, Brunoro disse que continuaria com Kleina. Só que não desistiu da ideia do argentino. A eliminação do Paulista para o Ituano já o havia colocado na porta da rua. Depois veio a derrota para o Sampaio Corrêa na Copa do Brasil e a demissão se sacramentou. Foi quando Brunoro trouxe Ricardo Gareca. Ex-treinador do Velez Sarsfield. Com o clube médio argentino conseguiu vencer campeonatos nacionais. Levou o America de Cali, na época de ouro do narcotráfico, a três vices da Libertadores. Ele estava querendo desesperadamente uma carreira no Exterior. Aceitou o desafio de vir trabalhar no futebol brasileiro, no Palmeiras.
Se cercou de seu auxiliar, o uruguaio Sérgio Santin e o preparador físico Néstor Bonillo. O contrato foi fechado até junho de 2015. Com a possibilidade de renovação por mais um ano. A confiança de Brunoro entusiasmou Paulo Nobre. O bilionário presidente teve a certeza do seu executivo que fazia a coisa certa. Ele seria melhor ao clube do que Vanderlei Luxemburgo e Dorival Júnior, com quem haviam conversado. Inteligente, personalidade forte, Brunoro garantiu que Gareca colocaria o Palmeiras de novo no rumo das vitórias. O ultrapassado cartola não percebia que trazia um treinador argentino que não conhecia a cultura do futebol brasileiro. Nem desconfiava da dificuldade do Campeonato Nacional que já havia rebaixado o Palmeiras duas vezes. Muito menos a pressão que é trabalhar no Palestra Itália. E pior de tudo, a fragilidade do elenco, formado por jogadores muito ruins e com fraca personalidade. Gareca estava cego a tudo. Queria se firmar internacionalmente. Já que o sonho de trabalhar na Espanha não havia acontecido, o Brasil serviria de trampolim. Mas ele tratou de tentar se precaver. Trouxe jogadores argentinos. Brunoro e Nobre tinham certeza que eles dariam resultado. Vieram Tobio, Mouche, Allione e Cristaldo. A imprensa portenha não davam seu aval ao quarteto. Pelo contrário, jornalistas argentinos os consideravam apenas esforçados, limitados tecnicamente. Nobre acreditava que havia ganho na loteria. Iria pagar um salário considerado baixo para treinador no Brasil: R$ 200 mil. Brunoro garantia que mostraria como sua mentalidade era moderna. Promoveria o intercâmbio. Só que o trabalho foi um fracasso retumbante. Gareca não conseguiu montar um time decente com o que teve nas mãos. Foram várias e várias formações que acabaram por deixar ainda mais inseguros os fracos jogadores palmeirenses. A equipe não tinha um desenho tático constante. Por isso durou apenas 13 partidas. E inacreditáveis 13 formações diferentes. Foram oito derrotas. Um empate e quatro vitórias. No Brasileiro foi apenas uma vitória, um empate e seis derrotas. Decepção em cima de decepção.
A sua demissão aconteceu hoje por pressão do Conselho Deliberativo. Paulo Nobre percebeu toda a fúria dos conselheiros. E viu que suas chances de reeleição estavam indo pelo ralo. O técnico ficou muito impressionado com a declaração de Lúcio. O veterano zagueiro disse que o treinador estava montando o time aberto demais. Lúcio sabe que é básico no futebol. Equipes fracas são montadas fechadas defensivamente. Gareca foi claro após a derrota diante do Internacional. "Eu sou um técnico que monto minhas equipes para a frente. Se desejam alguém que monte times defensivos, não sou eu." Não bastou falar isso para a imprensa. Repetiu para Brunoro e Nobre. O presidente ainda no sábado à noite sabia que o caminho da demissão de Gareca era irreversível. Ele quer mais um mandato no clube. E seria impossível com a equipe seguindo a direção do rebaixamento. O conselheiro Stefano Américo Jesus Giordano tentou bater no gerente Omar Feitosa, sábado no Pacaembu, revoltado com tanta vergonha. Teté tem muitos amigos no Conselho Deliberativo. Nobre percebeu o quanto o ambiente estava implodido. Teve a confirmação hoje. Os membros do Conselho de Orientação e Fiscalização do Palmeiras impuseram a demissão de Gareca a Nobre. A demissão aconteceu porque todos consideravam que o time precisava reagir no Brasileiro. E como ainda há mais do que um turno para ser disputado, a hora da troca era essa. O argentino foi demitido sem dó. Envergonhado com o péssimo trabalho, ele pediu desculpas à torcida palmeirense. "O Palmeiras é um clube magnífico. Peço desculpa ao torcedor. Só tenho a agradecer ao clube pela oportunidade." E vai receber sua multa rescisória. Aliás, foi ela que o segurou no clube. Sua família o queria em Buenos Aires. Amigos avisavam que estava queimando sua carreira no Palestra Itália. Mas o técnico tinha a multa que o prendia ao clube. Agora ele a receberá por ter sido demitido.
Nobre, o bilionário dirigente já colocou mais de R$ 115 milhões emprestados no Palmeiras. Pagar a multa rescisória de Gareca não o deixará mais pobre. Ele mesmo se incumbiu de buscar o treinador substituto. Há dois nomes. A prioridade é Tite. O dirigente deseja contratar o campeão mundial e da Libertadores pelo Corinthians. Ele já passou pelo Palmeiras em 2006. Saiu brigado com a diretoria e com as organizadas. Se ele não aceitar, Dorival Júnior, sobrinho de Dudu será procurado. Ele foi jogador do Palmeiras. Um bom volante por três anos, de 1989 a 1992. Nobre já está à caça do treinador. Enquanto isso, Alberto Valentim comandará a equipe. Na quarta-feira, o time definirá seu futuro na Copa do Brasil em Minas Gerais. Já perdeu para o Atlético no Pacaembu por 1 a 0. Tudo isso que acontece no Palmeiras demonstra um profundo amadorismo. Brunoro tem sido um desastre desde que voltou ao clube. Sem o dinheiro da Parmalat seus discursos vazios formam times cada vez piores. Nobre está profundamente arrependido. Já o afastou do futebol. E busca ele mesmo a solução para o clube. Tudo o que deseja é não ver o Palmeiras rebaixado. Vaidoso, quer ficar mais dois anos como presidente. A perspectiva do centenário já era ruim. Mas ninguém imaginaria que fosse assim tão deprimente. Ocupa a vergonhosa 16ª colocação no Brasileiro. Com oito estrangeiros em um elenco fraquíssimo, inseguro, sem confiança. Com dívidas que ultrapassam R$ 300 milhões. Uma briga selvagem com a construtora do seu novo estádio. Poucas vezes o Palmeiras esteve tão sem rumo. Com um comando que consegue ser amador e ultrapassado ao mesmo tempo. A aventura argentina com Gareca é apenas a ponta do iceberg verde...
Fonte: Esportes R7
Autor: cosmermoli
Publicado em: 01 Sep 2014 17:05:17
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