terça-feira, 22 de julho de 2014

A primeira e difícil missão de Dunga: tirar a Seleção da ultrapassada granja Comary. Marin não consegue enxergar. A hora é de acabar com a farra dos patrocinadores e dos torcedores. E deixar a Seleção trabalhar de verdade...

A primeira e difícil missão de Dunga: tirar a Seleção da ultrapassada granja Comary. Marin não consegue enxergar. A hora é de acabar com a farra dos patrocinadores e dos torcedores. E deixar a Seleção trabalhar de verdade...




Rio de Janeiro... Domar o gênio explosivo e tentar, usando diplomacia, se livrar da granja Comary. Este será um dos maiores desafios de Dunga na sua volta à Seleção Brasileira. A concentração em Teresópolis é a mostra de quanto é atrasada a mentalidade da cúpula da CBF. Das 32 seleções que acabaram de disputar a Copa do Mundo, só a brasileira, a anfitriã, não teve o mínimo de privacidade. E nem direito a um treino fechado, reservado exclusivamente a Felipão e seus atletas. Todas os outros 31 selecionados treinaram longe de jornalistas e observadores de times adversários. Só a equipe brasileira se expôs como se estivesse em um programa de auditório. O mais absurdo e inadmissível exemplo aconteceu exatamente na véspera da pior derrota brasileiras da história. No coletivo em que Felipão decidiria a equipe que enfrentaria a Alemanha. Ao levar seus jogadores para o gramado da granja Comary, o cenário era ridículo. De um lado, arquibancada para patrocinadores. Lotada de empresários e seus familiares. Crianças com caneta e máquinas fotográficas esperando o final do treino para o contato com os atletas. Era lá que atores globais cansaram de ir se divertir. Do outro, centenas de torcedores em frente a um condomínio que fica de frente à concentração. Atrás de um gol, uma cobertura de madeira para comportar os cerca de 700 jornalistas que acompanhavam diariamente os treinamentos. Entre nós havia, com toda a certeza, observadores das seleções adversárias da Seleção. O clima era de feira livre. Não bastassem as credenciais para todo o período de treino, havia as que davam direito a um dia apenas de observação. Geralmente dadas a amigos, dos amigo dos amigos. Muitos levavam salgadinhos e refrigerantes para acompanhar o show. Fora tudo isso, havia a Globo, Bandeirantes, Fox Sports e ESPN. Todas filmando todo o treinamento. As emissoras a cabo, mostravam tudo ao vivo. Felipão e seus atletas não tinham liberdade para dar um espirro sem serem fotografados, filmados. Cada grito, cada palavrão de incentivo ou de cobrança de Felipão era ouvido, registrado. Ele passou a Copa inteira se policiando, se tolhendo. Não sendo Felipão. Questionei o então diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva. Argumentei que todas as seleções treinavam de maneira discreta, profissional, reservada. "O Felipão faz treinos secretos na cara de vocês, jornalistas, e ninguém sabe o time que vai jogar. A Granja Comary é ótima." Garantia, fiel a José Maria Marin. A estratégia se mostrou ridícula. Felipão no coletivo decisivo antes da partida contra a Alemanha testou quatro times diferentes. O que entrou em campo no Mineirão, com Bernard no lugar de Neymar, treinou exatos dez minutos. Para enfrentar uma equipe que atuava com os mesmos jogadores há oito anos! O 7 a 1 tem lógica, sim. A humilhação nasceu na granja Comary.

Marin detesta tocar no assunto. Ele gastou R$ 15 milhões em reformas da concentração brasileira. Trocou quartos, fez piscinas de água quente, televisão a cabo, Internet, restaurante de excelente nível. Sala de musculação, fisioterapia. Reservou apartamentos individuais para cada atleta. Só se esqueceu do principal: os campos abertos, escancarados. Não há como tornar a granja Comary inviolável. Ela é cercada por montanhas. Mesmo se a CBF colocar tapumes, aos jornalistas e observadores rivais basta subir o morro. Dunga sabe disso. Mas é assunto proibido para Marin. O treinador terá o resto do ano para tentar convencer Marco Polo del Nero, o próximo presidente da CBF. Ele é menos apaixonado pela Comary do que o atual comandante da entidade. O sucessor eleito já ouviu várias e várias queixas sobre o local reservado à Seleção principal. O ideal seria deixar a reformada concentração para as equipes de base. E procurar outro lugar,mais reservado, para Dunga poder trabalhar. Todas as grandes seleções do mundo mantêm concentrações isoladas. Não é para dificultar a vida de jornalistas. Mas porque o trabalho exige. A visão de Marin é absolutamente ultrapassada. O time não pode ficar exposto como em um aquário, zoológico. Dunga encarcerou a Seleção Brasileira em um campo de golfe na África do Sul. Os deixou longe do mundo. Estavam mais para personagens de Lost do que uma delegação esportiva. Os jogadores foram proibidos de dar entrevistas longe do olhar de Dunga. Nem mesmo na folga. O Brasil está precisando desesperadamente de bom senso. Deixar a soberba de se expor como se o time fosse tão bom que não há nada o que esconder. No futebol moderno, há sim. Novas estratégias...Plano A com Neymar; plano B sem Neymar. Dois volantes de marcação; três volantes. Um atacante fixo. Nenhum jogador parado na frente. Três zagueiros; dois. Implantar duas linhas de marcação. Treinar jogadas de bola parada. Faltas, pênaltis. Movimentação nos escanteios e cruzamentos. Enfim...Uma infinidade de ações que um time moderno tem de fazer em paz. Longe dos olhos de quem quer que seja. Isso já acontece na Europa há mais de 15 anos. A chacoalhada que o Brasil levou da Alemanha por 7 a 1 precisa servir para acabar a soberba, o provincianismo.

A Seleção necessita de uma concentração de verdade, longe dos patrocinadores, dos atores globais, dos espiões de outros países. E até dos jornalistas nacionais. Só assim Dunga poderá trabalhar em paz. Enquanto o time continuar treinando na ultrapassada Granja Comary estará se escancarando para os adversários. Dunga sabe disso. E vai enfrentar fazer de tudo para tirar a Seleção do local que é a 'menina dos olhos' de Marin. Ele e Marco Polo precisam entender que os R$ 15 milhões gastos na reforma foi um erro. Mas fácil de consertar. Só em 2013, a receita da CBF ficou em R$ 436,5 milhões. Em 2014, com a Copa do Mundo, esse valor deve passar dos R$ 500 milhões. Esquecer os R$ 15 milhões enterrados na Granja Comary pode fazer toda a diferença. Entre o futuro ou ficar preso no passado por causa de um terreno comprado nas montanhas em 1987, quando nem se cogitava a importância de treinos secretos...





Autor: cosmermoli
Publicado em: Tue, 22 Jul 2014 09:14:35 -0300
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